20 fevereiro 2009

Para o Antonio, para a minha Mãe, e para ti...


A republicação deste magnifico artigo é em homenagem a quem o escreveu e a minha querida mãe, que quando eu era pequenina, me repetia vezes sem conta: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", Antoine Lavoisier
.


Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma
por António Rosa

No século 18, o químico francês Antoine Lavoisier, nas suas investigações científicas, descobriu que "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". A mesma lei aplica-se a nós, seres humanos, aos nossos sentimentos e, portanto, também, aos nossos relacionamentos amorosos. Por ser uma lei do universo, não se consegue contrariá-la. Ou é cumprida ou não. Deve ser entendida, sentida e aprofundada. Se assim for, o “resto” acontece com naturalidade, se existirem as condições apropriadas.

No entanto, atrevo-me a dizer que a maioria de nós não consegue entender-se com os seus próprios sentimentos amorosos, nem com esta lei aplicada à nossa própria vida.

E criamos obstáculos à execução da mesma, entrando frequentemente, em situações de extrema frustração e/ou depressão, que conduzem a outras situações. Que fique claro, caros leitores/as, que ao longo da minha vida, também não consegui entender esta lei e, muito menos, aplicá-la. Hoje, simplesmente, conheço e vivencio as consequências dessa "falta de atenção" às coisas que me estiveram potencialmente destinadas.

Continuemos, por favor. Se "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", então façamos a pergunta essencial: que tudo é este que se transforma? A resposta é simples: a energia. Que transforma a sua forma. Porque é de energia que estamos a falar. A energia é sempre a mesma, o que muda é a forma como se apresenta. Simples.

Sabemos que os rios, mares e lagos são água em estado líquido. É energia na forma líquida. Também sabemos que o gelo é água em estado sólido. É energia na forma sólida. Igualmente sabemos que o vapor é água em estado gasoso. Estas imagens pertencem ao nosso quotidiano. Em casa, todos sabemos utilizar esta energia (água) nas suas diferentes formas. O factor que processa a transformação nessas formas é apenas a temperatura. Ao encontrar as condições apropriadas, a energia muda sempre de forma. Sempre. É uma Lei. Nas relações amorosas, também.

Outro exemplo conhecido: uma semente é um óvulo já fecundado e quando fertilizado, contém um embrião a partir do qual surge uma planta que crescerá, se encontrar as condições apropriadas. Essa planta dará uma flor que, por sua vez, contém sementes. É o ciclo completo da natureza. Estamos sempre a falar da mesma energia. Apenas muda a forma. A mesma energia em forma de semente, planta e flor. Nas relações amorosas, também.

Quando pensamos em água, não temos dificuldade em pensar nela como sendo energia. A humanidade tem sabido utilizar esta energia. Porque consegue ver a água. Tal como vemos a semente, a planta e a flor.
Há energias que não se conseguem ver. O ar que respiramos, a brisa, o vento. Mas sabemos que existe. Não possui energia sólida. É subtil. Mas não tão subtil, ao ponto de não se sentir no nosso próprio corpo, que vibra perfeitamente com a brisa que nos toca, ou o vento que nos fustiga.

Com os sentimentos amorosos dos seres humanos é exactamente da mesma maneira. Não se consegue ver, mas está lá. O sentimento que tu chamas de amor está contigo, desde o momento que nasceste. É uma energia invisível que não te abandona nunca. Expressa-se de formas diferentes. É aqui que podem residir alguns equívocos: achares que o amor que dedicas aos teus pais, teus irmãos, teus filhos e amigos são coisas muito diferentes do amor que sentes pelo companheiro/a. Tudo é a energia do amor. Que se expressa de formas diferentes.

Por acaso não amas os teus filhos, independentemente da idade que tenham? Então? Em que ficamos? Claro que, quando eles são bebés tens que cuidar deles, de uma forma diferente, de quando, mais tarde, são crianças, adolescentes e adultos. No entanto, o amor é o mesmo. A forma como o expressas é que difere. Disso, não duvidas, pois não? Esse amor acompanha-te ao longo da tua vida. Não desaparece. Se as sogras olhassem para as noras e genros com apreço e gratidão, por estas e estes amarem os filhos/as que elas pariram, criaram, cuidaram e amam... Com as noras e genros, o mesmo. Pois, então! A maioria não consegue pôr a funcionar o 4º Raio da Criação [explicado num post mais abaixo] - tentar a Harmonia através do Conflito.

Estou sempre a falar do mesmo: novas vibrações, nova era, novas energias, era de Aquário, aquilo que chamamos de espiritualidade... É disto que eu falo, por exemplo, com os exemplos que dei até ao momento, neste texto. Somos nós quem deve iniciar essa mudança. E este "nós", sou eu e "tu", que me estás a ler. A aprendizagem é total e global, porque estamos todos na mesma nave - o planeta Terra. E é esta nave quem nos está a ensinar a... amar. Aliás, sempre ensinou. E nós, cegos e surdos aos seus ensinamentos. Qualquer dia, escreverei aqui, sobre o significado holístico e metafísico da doença que chamamos "cancro", para ficares a saber que está associada à falta de amor ou, pelo menos, à sensação que se pode ter de faltar amor.

Cresceste e aprendeste a dar nomes diferentes à mesma energia que conheces pelo nome de amor. Amor de mãe. Amor de irmão. Amor filial. Ao amor de amigo, chamas amizade. No entanto, só pensas e classificas de “amor-amor” quando se trata do teu companheiro/a. E iludes-te, pensando que é o amor verdadeiro. Lá saberás o motivo, talvez porque fazes sexo com esse ser que te acompanha. E o sexo faz falta. É bom e é uma energia muito positiva. Daí ter surgido a frase: “fazer amor” que, como saberás, é uma invenção da humanidade, porque o amor não se faz, vive-se. Eventualmente, fazes sexo com o ser amado, o que é diferente. Imagino que não te passa pela cabeça fazer sexo com os teus familiares e amigos [deixemos de fora as excepções, por favor]. Por estas e outras razões, talvez aches que aquilo que sentes pelo companheiro/a é o único e verdadeiro amor.

No ocidente [que conheço melhor] as pessoas são treinadas a acreditarem na ilusão. São múltiplos e enfadonhos os exemplos de ilusão. Anotemos alguns pequenos exemplos que eu tenho ouvido ao longo da vida, sobretudo do lado feminino: “é a minha alma gémea”, “é o único amor da minha vida”, “é o grande amor da minha vida”, “não consigo viver sem ele”, “que vai ser de mim, sem ele?”, “apetece-me morrer porque ele tem outra”. Assim está meia humanidade. Completamente dependente de uma forma de expressão.

Há sempre o secreto sonho de encontrarmos a cara metade com quem se criará uma relação tão duradoura, como a dos nossos avós. Hoje, o exemplo já tem que ser com os avós… Há uns anos podíamos dar os nossos pais, como exemplo de uma relação duradoura. São outros tempos. Não que sejam melhores, apenas diferentes. A energia mudou…

Duas pessoas conhecem-se, sentem-se mutuamente atraídas e iniciam uma relação que se transformará em amorosa.

"Ele lá lhe disse a medo:
'O meu nome é Pedro e o teu qual é?'
Ela corou um pouquinho
E respondeu baixinho:
'Sou a Cinderela'"
"Cinderela" de Carlos Paião"

Têm em comum uma característica: sentem que alguma coisa dentro deles se alterou. É um sentimento a surgir. É a energia do amor a criar uma nova forma. Essa energia sempre lá esteve. Pertence ao teu Ser único e insubstituível. Simplesmente, está a mudar de forma. Tal como acontece com a água e a semente, a energia do amor toma nova forma por ter encontrado as condições apropriadas.

É exactamente aqui que se geram os maiores equívocos, por desconhecimento e pela natureza das pessoas. A partir deste momento, entram em jogo outros factores de enorme importância. Entra muita coisa ao barulho, à confusão, que pode turvar essa relação. Habitualmente, esses factores conseguem contaminar a relação amorosa.

Porque a pessoa ao sentir que irrompe um sentimento amoroso dentro de si, encontra-se incapaz de se auto-analisar. Está disposta a se entregar a esse sentimento. Isso é bom.


"E, num desses momentos, houve sentimentos a falar por si.
Ele pegou na mão dela: "Sabes, Cinderela, eu gosto de ti..."
"Cinderela" de Carlos Paião"

Se nós fizéssemos tudo para manter a energia amorosa nessa forma de pureza inicial... Se os sentimentos se ficassem por aqui... Simplesmente, que se amassem, que amassem o outro e se deixassem amar pelo outro... É uma oportunidade única e especial que os aparelhos do corpo físico possuem para entrarem em sintonia fina com a alma. Simplesmente, amar. Mas não é assim que, habitualmente, processamos. Quando esse sentimento aparenta ser correspondido, parece entrar imediatamente em funcionamento os mecanismos que pertencem ao corpo material do ser e que só atrapalham esse relacionamento: a personalidade, o ego, a mente e as emoções.

A lei diz que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Essa nova forma do sentimento que surge, não é percebido como simplesmente “amor”, mas sim, entendido, como sendo “um amor exclusivo por aquela pessoa”, não sobrando nada para ela própria. Assim, dificilmente, o relacionamento poderá sobreviver. É apenas uma questão de tempo… Porque nos esquecemos de partilhar assim:

"E dividem a merenda, tal como uma prenda que se dá nos anos."
"Cinderela" de Carlos Paião


O resto é feito por uma certa incapacidade de auto-conhecimento profundo de cada um de nós. Se a pessoa acreditar que esse amor é apenas para ser dedicado ao outro, não percebe que, se não se amar primeiro, se não tiver a sua auto-estima bem trabalhada, não está a fazer nenhuma partilha, mas sim uma entrega submissa, cega e sem sentido. Nem sequer uma é dádiva. Simplesmente, está a criar uma enorme dependência pelo outro/a, que será fatal a esse relacionamento.

O “resto” é confundido com uma miríade de emoções e pensamentos, que são completamente independentes do sentimento amoroso. É nesta fase que se criam as dependências, tão nefastas nos relacionamentos. Praticamente, desde o início, que a relação pode ter entrado em derrapagem, desequilibrando-se, descentrando-se.

Fica assim criado o caminho certeiro para que a energia do amor volte a arrefecer, iniciando nova transformação, recolhendo-se ao sacrário do coração, por não encontrar as condições apropriadas para o seu desenvolvimento.

“Ele é meu”, “ela é minha”. Atitudes de posse, de autoridade, com todas as emoções e pensamentos negativos que isso acarreta. No início, tudo parece bonito, mas aos poucos entram os restantes factores alheios à energia amorosa. Os ciúmes, o poder, o controle, a dependência, a ausência de respeito recíproco, as acusações, etc. Todas estas questões estão muito estudadas e não é minha pretensão explicar estas coisas, aqui.

Se a semente é uma energia que vai transformado a forma até surgir a flor, porque razão, o amor não pode ir assumindo formas diferentes? Porque razão, numa relação amorosa, os parceiros não dão oportunidade a que essa energia adquira uma forma realmente amorosa?

Talvez porque todas aquelas atitudes tomadas pela personalidade (ego, mente e emoções) - os ciúmes, o controle, a dependência, a ausência de respeito recíproco, as acusações - foram esticadas ao excesso e passaram a dominar o relacionamento, por vezes de forma tão encapotada que até parece estar tudo bem. Quando não está.

Onde ficou aquela energia que desde o início vocês chamaram de amor?

O amor ficou tapado, entulhado, coberto, cheio de lixo psíquico e mental; escureceu, perdeu brilho, retirou-se, já não está presente. Em suma, voltou a mudar de forma.

E, assim, instala-se o vazio da alma.
Mais uma vez, caíste na armadilha de acreditares que apenas és o corpo que tens.
Ilusão, pura ilusão.
Que consigas fazer melhor, da próxima vez que te enamorares.
Sim, porque a vida vai dar-te outra oportunidade.

Por favor, não me apareças nas consultas de astrologia,
a quereres saber quando...


Este artigo foi publicado no já desaparecido blogue "Postais da Novalis" em Junho de 2006.

8 comentários:

Astrid Annabelle disse...

Começar o dia lendo este texto está sendo maravilhoso.
Parabéns Magda por sua iniciativa de republicar este momento único e especial do António!
Um beijo agradecido.
Astrid

António Rosa disse...

Magda

Fiquei de boca aberta com a surpresa. Aproveitei para o reler.

Muito obrigado.

Besitos.

António

Filomena Nunes disse...

O texto é lindo, simples e directo...

Mas ainda há muito fatalismo (fado) na alma colectiva do povo português: -"Eu quero amar, amar perdidamente!" Por muito bela que seja a poesia da Florbela Espanca, devemos perceber que se/quando/onde nos perdemos, não nos encontramos... e é no AMOR que podemos nos encontrar!!

A menos que cheguemos ao limite! Como disseram os Mestres taoístas: "a energia tem chegar ao limite para virar no seu contrário."

Grande abraço ao António Rosa pelo texto e à Magda Moita pela iniciativa de sua republicação.

Anónimo disse...

Adorei o texto, e o final fez-me rir. Vamos ver se este fds o entulho e o lixo que teimam em aparecer, se transformam no amor infantil que nos trouxe a até aqui.

Gd bj Magda

Luma

Magda Moita disse...

Olá Astrid!

Começar o dia com um texto do António é sempre muito bom!

Beijos.

Magda

Magda Moita disse...

Olá António!

É bom começar o dia contigo!

Um texto muito inspirador! ;)

Besos

Magda

Magda Moita disse...

Olá Filomena!

Foi bom recordar este poema, que curiosamente, a minha mãe me recitava em miúda.

"Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."
Florbela Espanca

Nós somos Amor, e o único sitio onde nos podemos encontrar é dentro de nós próprios, e nessa vibração, o amor manifesta-se ao nosso redor. Podemos inclusivamente amar a mesma pessoa uma vida inteira, em diferentes estados de manifestação desse mesmo amor.

Um abraço, e obrigada pela visita

Magda

Magda Moita disse...

Boas Luma!

Gosto de te ver por aqui!

Acredita! E podes crer que a magia acontece.

Beijos fofos,

Magda